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Pedro João Rodrigues PDF Imprimir e-mail
Grupo "Superiormente Falando" (Área de Projecto, 12ºB)   
26-Jan-2010
Investigador do IPB vence Live Edge 2008 com protótipo amigo do ambiente
 
João Pedro Rodrigues é professor do Instituto Politécnico de Bragança. O resultado da sua investigação foi recentemente reconhecido com o Prémio Live Edge 2008 atribuído a um aparelho que permitirá poupar energia pelo facto de desligar os electrodomésticos que estejam em stand-by por mais tempo do que o previsto. O orçamento das famílias e o ambiente agradecem. E Bragança orgulha-se de o ter por cá.
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O projecto

Superiormente Falando: A nossa professora falou-nos de um prémio que recebeu, o Live Edge 2008. Desde já parabéns. Esse prémio foi a nível mundial?
Pedro João Soares Rodrigues: Sim, foi a nível mundial.

SF: Então como surgiu a ideia do seu projecto e como a começou a desenvolver?
PJSR: A ideia surgiu-me na procura de uma ideia para participar no Live Edge 2008. Ocorreu-me mesmo nessa procura e não havia nenhum antecedente nesse sentido. A área em que eu trabalho, que é a inteligência artificial, permite fazer reconhecimento de padrões complexos, sejam padrões visuais sejam padrões de consumo. Então lembrei-me: “Posso criar um dispositivo que aprende a reconhecer padrões de consumo de um determinado equipamento; posso, então, colocar um sistema que, depois de ter feito a aprendizagem, pode decidir quando deve cortar a alimentação por completo a um dispositivo se este está a realizar um consumo desnecessário, que é o caso do standby.”

SF: Pois, nós íamos perguntar-lhe como funcionava o seu protótipo. Sabíamos, no geral, que ele cortava o fornecimento de energia a um aparelho que estivesse em standby,  mas isso acontece logo ou só passado algum tempo?
PJSR:  Depende do equipamento, as variações do consumo ao longo do tempo não são constantes. Essas variações reflectem um traço específico acerca desse equipamento consoante se encontra em standby ou em consumo real. Portanto, o que o aparelho faz é, depois de analisar esse traço de consumo,  reconhecer quando o equipamento entrou nesse estado e, passados alguns testes, o aparelho corta por completo a energia ao electrodoméstico que está a controlar, porque o reconheceu como estando em standby.

SF: O protótipo desenvolvido foi baptizado com o nome de ‘Intelligent Stand-by Energy Saver’. Por que razão deu ao projecto um nome inglês e não português?
PJSR: O concurso era internacional. Todos os elementos do júri eram de origem inglesa, pelo menos em termos de língua. E, além disso, uma das regras do concurso era dar um nome ao projecto em inglês ou em chinês. Portanto nem a descrição nem o nome do projecto podiam estar numa outra língua.

SF: O que sentiu quando recebeu o prémio Live Edge 2008?
PJSR:  Existe sempre uma expectativa de vir a ser o vencedor, caso contrário não participaria, mas, no meio de cerca de 800 participantes, a hipótese de se receber o primeiro prémio era vista como remota. E participaram também várias instituições, pois estes são concursos que oferecem um prémio monetário relativamente elevado. Portanto, quando recebi o prémio, senti, em primeiro lugar, uma espécie de êxtase e custou-me até a acreditar que tinha sido eu o vencedor. Depois apareceu uma sensação agradável ao ver que o trabalho tinha sido reconhecido a este nível. Queria dizer que ele servia para alguma coisa.

 SF: Esse prémio implicou alguma mudança na sua vida?
PJSR: Não. Além da experiência e de ter motivado contactos internacionais, de pessoas que estavam interessadas em saber o que era o prémio, o que era a ideia e outras interessadas em fabricar o dispositivo. Para além disso, não me proporcionou nada de especial, excepto a experiência particular de ter contacto com as pessoas da indústria e da produção destes dispositivos.

SF: O seu produto vai ser comercializado?
PJSR: Em princípio, sim. Existe uma empresa portuguesa que tem vontade de o fazer. Neste momento temos estado em negociações, a discutir alguns detalhes técnicos que têm de ser produzidos, embora a grande dose de correcção vá no sentido de minimizar ao máximo o custo de produção do equipamento. Os cinquenta mil dólares do prémio são divididos em dois grupos: 25 mil que correspondem a um valor com o qual eu posso fazer o que entender e  o restante que tem de ser aplicado no projecto, nomeadamente em aconselhamento técnico de apoio à produção do objecto.

SF: Desenvolveu outros projectos para além deste?
PJSR: Estou a desenvolver um projecto na área da daltonização, isto é, correcção daltónica. Pretende, através da aquisição de imagens por parte de um dispositivo, como por exemplo um telemóvel, fazer a melhor correcção possível frente a uma imagem que tem de ser interpretada por uma pessoa que tem deficiência daltónica.

Ser cientista em Portugal


SF: E em relação aos seus trabalhos, pensa que não são valorizados no país e mesmo na nossa cidade?
PJSR: Relativamente ao prémio, penso que foi bem publicitado. Em termos de jornais locais, de rádio e mesmo de televisão. É claro que a difusão das notícias acaba sempre por escapar a uma percentagem da população. Sobre o meu trabalho em geral, ele tem uma motivação muito científica e acaba por ser dirigido a uma comunidade quase estritamente científica. Depois podem surgir, dessas investigações e publicações, casos e produtos que tenham uma real aplicação imediata no mercado para o público.

SF: Não sente dificuldades em trabalhar em Portugal? Não seria mais fácil trabalhar no estrangeiro?
PJSR: É certo que fora de Portugal há outro nível de apoios que ainda não se conseguem em Portugal. A facilidade de apoios no nosso país não é tão elevada como noutros. Mas sem dúvida que o governo está a investir mais na investigação cientifica. Aquilo que eu vejo é a falta de recursos. Nós podemos ter um grau de nível de conhecimento equivalente ao de pessoas que trabalham nas mesmas áreas, por exemplo, nos EUA, mas temos alguma falta de recursos e não conseguimos trabalhar em certos âmbitos que necessitam de materiais que não existem em grande escala no país.

SF: O que é que acha que poderia ser feito para melhorar essa situação?
PJSR: A nível político, poder-se-ia apostar mais na investigação científica. Ainda mais. No entanto, há, de facto, muitos projectos financiados nos últimos anos, mesmo de carácter europeu que chegam a Portugal e que têm sido impulsionadores da investigação científica como nunca tinha acontecido até ao momento. Não conseguimos é, para já, estar ainda ao mesmo nível de outros países, em termos de recursos.
Ser investigador

SF: Pode explicar-nos como é o seu dia-a-dia na sua profissão?
PJSR: A minha profissão tem como primeiro objectivo a docência. Portanto, essa é a prioridade. O meu dia-a-dia tem a ver com estudar e investigar algumas matérias que surgem todos os dias e que servem para depois actualizar as matérias que eu exponho aos alunos. Como eu tinha dito antes, em paralelo a essa actividade da docência, existe a da investigação, que é executada como segunda prioridade. “O que é que faço aí?” Tento descobrir objectivos interessantes, como este da correcção daltónica, e depois investigo técnicas promissoras para a resolução do problema. Essa investigação pode passar por técnicas já conhecidas ou pela modificação ou inovação de técnicas que têm uma base naquilo que já é conhecido e tem outra base em ideias minhas que tentam adaptar aquela técnica ao problema que achei mais interessante.

SF: Então, prefere a investigação ao ensino?
PJSR: Prefiro. Prefiro a investigação ao ensino. É mais aliciante para mim. Isso tem a ver com o meu perfil particular.

SF: O que é que mais o atrai na investigação? Há algo em especial?
PJSR: Sim. O poder resolver problemas que não estão resolvidos. Aquilo que atrai é a expectativa que se cria na procura da solução para o tal problema. Sermos capazes de resolver o problema.
SF: Quando é que decidiu seguir investigação?
PJSR: Em termos de ensino superior há um pouco a obrigação. Se somos docentes do ensino superior, então temos de fazer investigação. É uma forma de estarmos actualizados e de desenvolvermos as nossas capacidades de procura de soluções. É uma espécie de obrigação.
SF: Acha que as pessoas demonstram algum interesse pelas novas tecnologias?
PJSR: Eu penso que sim, mais os estudantes. São mais interessados, sentem-se mais atraídos. Eles sentem-se atraídos pelas tecnologias em si, ou melhor, pela prática dessas tecnologias mas, no que toca a parte teórica, ao que está por detrás das tecnologias, não se interessam.
SF: Acha que o seu trabalho é devidamente valorizado, reconhecido?
PJSR: É um pouco relativo. Eu penso que tenho o reconhecimento suficiente. Mas a maior parte das pessoas não conhecem o projecto e muito menos quem o criou.

SF Acha que o facto de o seu trabalho ter sido desenvolvido num politécnico, embora seja bastante conceituado a nível nacional, prejudicou o desenvolvimento do seu projecto?
PJSR: Não, o que importa são as pessoas, ou seja, dois mais dois é igual a quatro, tanto aqui como na China, tanto dá que seja politécnico como outra coisa qualquer. Os programas são os mesmos, as teorias são as mesmas que as de uma universidade. Nessa perspectiva, essa diferença não é tão acentuada como se pensa.

SF: Normalmente as pessoas têm a ideia de que a universidade é mais teórica e o politécnico mais prático, e de que, em termos de arranjar emprego, o licenciado por uma universidade é beneficiado em relação a outro de um Instituto Politécnico. É verdade?
PJSR: Não é verdade que o politécnico seja um ensino mais prático, mas deveria sê-lo. O politécnico foi criado para ser mais prático, mas acaba por ser um ensino semelhante ao da universidade. Pessoalmente, gostaria que fosse mais prático, mas é teórico como na universidade.

Ser cientista em Bragança


SF: Pode fazer um balanço dos últimos dez anos a nível da ciência em Bragança?
PJSR: Só posso falar daquilo que conheço. E pelo que conheço houve de facto uma evolução, a nível do politécnico, pois houve um investimento no doutoramento dos docentes que integram a instituição. As pessoas após o doutoramento ficam mais vocacionadas, ficam mais motivadas para as suas especialidades. Logo este investimento contribuiu para a evolução da ciência.

O homem por trás do cientista

SF: Nós também gostaríamos de saber um pouco mais sobre si. Como é que é o homem que está por detrás da ciência?
PJSR: (Sorriso) Acho  que se pode dizer que estou viciado na ciência. O poder fazer ciência, o investigar, o conseguir desenvolver um projecto, isto tudo faz com que me vicie. Ou seja, quando estou a acabar um projecto, já estou a desenvolver outros. Quando vou a meio de um projecto e me apercebo no que vai resultar, perco o interesse nesse projecto e isto é um grande defeito. Acabo por me afastar um pouco da vida social, prefiro ficar com um computador, a investigar e ligado à ciência.

SF : O que diria aos jovens que estão a pensar seguir na área da ciência?
PJSR: Não podem pensar em seguir, têm de ter a certeza. Não se pode pensar “Vou para ciências porque é giro!”, tem de se ter convicção. Sobretudo, tem de se ter vontade, paciência, persistência, e em termos de carreira pode dar origem á integração noutros projectos.

SF: Quando tinha a nossa idade, como via a ciência?
PJSR: Nessa idade ainda não pensava numa carreira de investigação, mas sim de ser uma pessoa que ajudasse no desenvolvimento da ciência.

SF: Parece que conseguiu simultaneamente ajudar a ciência e fazer investigação. Agradecemos imenso a sua colaboração e continuação de um bom trabalho. 
 
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