| Arquitectura em Bragança na primeira década do século XXI |
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| Arq.João Ortega (Morphopolis) | |
| 29-Jan-2010 | |
![]() Na primeira década do século Bragança sofreu uma profunda transformação, que já vinha anunciada da década anterior, atinge o seu pico em meados da década e chega ao final desta em profunda estagnação e depressão.
A transformação ficou a dever-se aos investimentos públicos realizados, mas acima de tudo aos muito mais significativos investimentos privados, que as empresas e os cidadãos em geral realizaram ao longo da década. Simplificando a análise, esta será dividida em duas partes: Espaço Urbano Ao nível privado, a cidade, por força dos loteamentos particulares, transforma-se numa manta de retalhos. Com a propriedade de base já por si muito retalhada, e perante a falta de planos de pormenor que estabeleçam as linhas orientadoras, os loteamentos fecham-se dentro do terreno que lhes calhou retalhar, deixando quase tudo por resolver: - A necessária articulação com os espaços envolventes; - A topografia, criando ruas com declives impraticáveis; -Áreas de cedências para equipamentos e zonas verdes, sem dimensão, forma e sentido. Ao nível público a década fica marcada pela expansão da Braguinha. Uma nova cidade na cidade de Bragança: - Nova, porque iniciada no princípio da década, chega ao final desta praticamente concluída. - Nova, porque fora da cidade, já que a cidade “velha” e a cidade “nova”, mais do que ligadas, são separadas pelo túnel/fronteira. - Nova, porque a capacidade habitacional instalada quase duplica a da restante cidade, a cidade da década de 80 certamente. Paralelamente, decorrem dois importantes investimentos públicos, o “Procom”, na renovação do espaço público da cidade “comercial”, e o Programa Polis, no reacondicionamento das margens do Rio Fervença entre o Campus do Instituto Politécnico e a Ponte do Jorge. O “Procom” lavou a cara da cidade, renovando-lhe os pavimentos na totalidade, transformando-a. Torna-se menos orgânica e mais espartilhada em espaços monofuncionais que não interpenetram as suas funções. O passeio é passeio, a faixa de rodagem só serve para rodar, o estacionamento para estacionar. E as ruas tornaram-se “estreitas”. Perdeu-se a multifuncionalidade da rua, da soleira da porta, como espaço privilegiado da conversa, ao toldo que abriga a venda, a esplanada, o movimento de peões e veículos, por vezes caótico, mas directamente proporcional à vitalidade da cidade. Vitalidade perdida parece ter sido a consequência da intervenção. É certo que a cidade apresenta hoje mais pontos de vista para fazer a fotografia adequada ao Postal Ilustrado (também ele em desuso), mas o comércio tradicional entrou numa espiral de morte de que não se vê saída, na mesma razão directa da cidade asséptica que foi criada. A Praça da Sé, centro cívico da cidade, é hoje um espaço vazio que uns poucos, raros, resistentes teimam em manter aparentemente habitado. O Programa Polis fez o saneamento do rio Fervença e teve, ou deveria ter tido, a ambição de trazer o rio para a cidade ou de levar a cidade até ao rio. Em grande parte, essa ambição ficou por cumprir. Perdeu-se a importância que no passado o rio representou para a cidade como elemento de produção de riqueza: - enquanto foco primordial da produção da seda; - enquanto linha de moagem de cereal (são múltiplos os moinhos no espaço de intervenção do Polis); - enquanto primeira central hidroeléctrica de fornecimento de electricidade à cidade. Para o rio, o Polis apenas reserva um papel cultural, transformando os moinhos em museus, a central eléctrica em Centro de Ciência Viva, que, pese embora a boa qualidade do objecto arquitectónico se encontra já hoje obsoleto, por força da evolução tecnológica, apresentando sinais evidentes de degradação, pelas soluções construtivas adoptadas, e sem que tenha ainda enfrentado o seu principal problema – a fúria do rio, que viu o edifício ocupar um espaço que é seu e que, em enxurrada próxima, não deixará de reclamar como seu. A cidade viu nascer uma série de centros alternativos; cada bairro procura afirmar-se como alternativa, sem que em nenhum deles se anuncie a capacidade para tal, pelo tempo, que não têm, pela qualidade formal, que não lhes foi dada e não adquiriram, pelo número, que não arregimentam. Serão ainda estertores de vivências rurais, mais do que verdadeira manifestação urbana de cidadania. (Continua no próximo número) |
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